Quase uma história inventada, aumentada, mas uma história real.
Segundo dia de aula do segundo semestre do primeiro ano do curso de direito na faculdade nova.
Durante o primeiro semestre, estudávamos no extinto seminário num bairro muito afastado, mas quando retornamos das férias de Julho, nosso curso fôra transferido para a construção nova. Tão nova que só o prédio estava pronto. O caminho para chegar até lá era inacessível. Da avenida principal que dava acesso ao local, entrava-se numa rua de pedras cascalhada, muito íngreme. A poeira cegava. Quanto mais próximo chegávamos, mais distante ficávamos da cidade, dos postes de luz... Passando a favela, caía na rua estreita, sem iluminação, com um cascalho de arrebentar qualquer automóvel. E o lago... Ali na margem direita da rua estreita cascalhada, estava o lago... Sem nehuma proteção. Era simplesmente um lago com sete metros de profundidade.
Ao final da aula, por volta das dez horas e quarenta minutos do dia treze de agosto de dois mil e dois, entro no carro e saio do estacionamento. Na rua estreita, os carros descem enfileirados. A minha frente um fiat uno com duas garotas derrapa e perde a direção, eu desvio para não acertar na porta do carro delas, mas em questão de segundos eu simplesmente estou caindo com meu carro no lago! A pior sensação que vivi em toda minha vida, é como uma piada! Ver-se caindo num lago com carro e tudo não é coisa que aconteça todo dia com qualquer pessoa...
Lá estávamos; eu e o corsa. Literalmente afundando. As rodas traseiras ficaram enterradas no lôdo espesso e a metade e frente estavam submersos. Era tudo muito rápido. Estava em estado de choque mas mantinha-me consciente. A água fria entrava pelos frestos das portas e cobriam meus tornozelos. Olhei pelo retrovisor e um pessoal balançava a mão e gritava para eu sair do carro. Quando tentei abrir a porta não consegui, não destravava. Lembrei de desligar a ignição, mas deu uma pane no circuito elétrico que nem os faróis apagavam. Para completar a desgraça: meu carro era com travas elétricas!!! E nenhum filha da p..... para entrar lá e se tocar que eu não saía de dentro porque não havia como. Comecei a chutar a porta com toda minha força. A porta abriu! Um tanto de água inundou e balancou mais o automóvel, pensei que de vez fosse afundar! Mas não afundou, ficou mais submerso apenas. Saí me segurando na porta e onde estava ainda conseguia ficar com a cabeça fora d'água. E assim como eu saí de lá, minhas coisas foram saindo também... cds, mala, caderno e papéis boiando .... Só peguei minha bolsa antes de sair. No momento da queda, imaginei que estivesse no meio do lago, a sensação era igual uma cena de filme em que o carro cai e afunda rapidamente... Para minha sorte não foi uma cena de filme...
No barro ainda, um colega me puxou pelo braço. Sentei-me na rua e fiquei pasmada tentando me reencontrar . Um professor pediu o telefone dos meus pais e imediatamente ligou em casa. Era aniversário da mãe e estavam familiares todos aguardando minha chegada para cantar parabéns! Quando a mãe recebeu a informação, num primeiro momento achou que eu tivesse caído sozinha no lago, como se alguém tivesse me empurrado ou tivesse tentado nadar um pouquinho... Muito apropriado o local, o horário e as condições para alguém nadar no lago da faculdade.... rs. Quando ela soube que o carro tinha caído junto, mais que depressa acionou o seguro, o guincho e meu pai agilizou-se. Em dez minutos ele estava lá com caminhão e tudo!
A seguradora removou o brinquedinho da água porque alegou que não constituía perca total. Enquanto isso; eu estava sendo abordada pela faculdade inteira, todos queriam conhecer a garota que conseguiu tal proeza! Queriam saber se estava drogada, bêbada ou alterada para tal feito. Um professor mandou todos embora, inclusive eu. Na manhã seguinte resolveríamos tudo,pois eu não me encontrava em condições no momento.
Já em casa, lá pela meia noite e meia, o bolo intacto na mesa. A mãe até esqueceu do aniversário. Em vez de acalmar meus ânimos e tentar me trazer de volta a realidade, ainda escutei poucas e boas!!! Quando se tem um acidente desse grau, de nada adianta perder tempo tentando convencer os outros que não se têm culpa, que a barbeiragem foi alheia.
Na manhã seguinte compareci na faculdade e houve um acordo, deram-me um celular novo para substituir o afogado; material completo; cobriram a franquia do seguro e um carro alugado pelo tempo necessário até o meu sair da oficina. E mais um descontão na mensalidade. Em troca eu deveria evitar comentários com a imprensa e alguns órgãos como polícia, etc... Concordei!
A noite eu estava famosissíma! Mesmo que por tamanha candanguisse, mas era o comentário do ano! Não foi bom ser conhecida desta forma! Hoje é divertido lembrar. Hoje...
Graças ao meu in(a)cidente, voltamos para o antigo prédio de seminário do bairro distante, até que as obras no local novo fossem concluídas, para não colocar mais nenhuma vida em risco. Toda noite, quando chegava na aula, uma frase no quadro como: " Ana Paula, pule no lago com um biquini, não com um carro." Ou : "Corsa - primeiro carro a prova de nado no lago", entre outras... No final de semana, fui numa festa e a cidade inteira estava lá, pior que isso; todos me conheciam como a Ana do Lago... Apelido que até então me acompanha...
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